Eu preferia morrer a renegá-los.
Rachel Jardim
"Os anos 40: a Ficção e o Real de uma Época" (1973 - referências retiradas de JARDIM, Rachel. Os anos 40: a Ficção e o Real de uma Época. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979), livro memorialístico da escritora Rachel Jardim, que nasceu e viveu os tempos de infância em Juiz de Fora (MG), está prestes a completar 40 anos desde seu lançamento e é uma das maiores referências na obra da autora mineira. O conteúdo é o retrato dos costumes sociais de sua família e época. E como ela mesma nos revela no subtítulo: é um enlace entre a ficção, onde se acentuam os aspectos imaginativos de seu texto, e a realidade, em que presenciamos as lembranças que afloram de sua mente sobre os anos 40 vividos nas cidades de Juiz de Fora e Guaratinguetá, a Guará da sua adolescência.
Logo no início da leitura, temos a noção de seu enredo: a descrição dos costumes sociais da família e da época em que estão inseridas as histórias da personagem que narra. No entanto, ao debruçarmos sobre as últimas páginas da narrativa, sabemos que há algo mais por trás dessas aparentes marcas anódinas. Há a feição da personagem Rachel Jardim, que perfaz a sua vida através da de outros, desvela-se tentando encobrir-se, narrando as suas histórias na tentativa de se encontrar (ou, quem sabe, tentar achar o tumor que a consome, a vida que se esvai dela).
No início do texto, ela já caracteriza a sua família e, por conseguinte, a si mesma: “Um sentimento caracterizava aquela raça, para mim tão forte, tão peculiar e que marcou tanto a minha vida: a religiosidade” (JARDIM, 1979, p. 3). Os espíritos íntimo e religioso que a cercavam geravam a contenção, a sensualidade e a luxúria encobertas, o ascetismo, a sobriedade etc. Em sua trajetória de vida, ela se sente torturada, pois se estava sempre atrás de Deus.
É daí que Rachel descobre em sua tia Inaiá um balaústre, uma fonte de inspiração para fugir daquelas sensações que a perturbavam. Uma pessoa que “nunca teve religião. De Deus, simplesmente prescindia” (JARDIM, 1979, p. 40). Tia Inaiá era o seu elixir da cura, mas como ter a coragem dela? Não basta querer “ser”, tem que ter a coragem de “ser”. Dessas inquietações e das conversas com sua tia surge Jean Paul Sartre, filósofo francês, autor de O Ser e o Nada (1943), livro em que se expõe a doutrina existencialista. Rachel nos fala do filósofo e do existencialismo: “Eu, fazia treze anos. [...] Tia Inaiá foi a primeira pessoa que me falou de Sartre. Pensava que era cedo para eu lê-lo, mas quando fui morar na fazenda, ali encontrei os seus livros e li” (JARDIM, 1979, p. 18). Ela lê Sartre na adolescência, quando vai com a família para Guaratinguetá. Também o lê durante o período da faculdade, dividindo as suas questões com um amigo, Ronaldo: “era o único que sentia angústia existencial. Por isso nos entendíamos” (JARDIM, 1979, p. 107).
Rachel, no entanto, vivia muito mais a angústia da espera do que a angústia sartreana, a da ação e da tomada de decisão. “Esperávamos. E nessa espera, fora e dentro de nós, as coisas aconteciam” (JARDIM, 1979, p. 9). O ritmo era lento e a vida de espera, de inação e quietude. Esperava-se o agir dos outros para algo acontecer. Tinha-se, para Rachel, um ambiente repressor que provocava a falta de liberdade. A angústia da espera era longa, substancial e alinhavada ao infinito. Rachel Jardim seria a única que poderia sobrepujar essa situação, mas é levada à busca pelo fantasioso, criando, desse modo, um ambiente de sonho e senso de irrealidade. Ela se perde da vida, imaginando-a mais do que a vivenciando. Em certo momento, chega a declarar que a vida imaginada é que era boa. “Não havia realidade e sim fantasia” (JARDIM, 1979, p. 50). Esse sentimento só é modificado quando a personagem sofre pela ausência dos mortos e, através deles, reflete sobre sua existência e se depara com uma realidade sofrível. Nesse sentido, o renascimento dos mortos e seu consequente convívio com eles a fazia permanecer no lugar de onde ela queria romper. Ela não só não rompia como mantinha as tradições por meio do reavivamento deles. Evitava, com isso, viver. E, quando vivia, estava sempre na sombra de um espectro, carregado de tradições, de sobriedades, de contenções e ascetismos. Quando a sensação de vida (em certo sentido plena e carregada de signos que nos remetem a palavras como liberdade) surge, Rachel não sabe o que fazer com ela, ou seja, não consegue romper, viver a sua livre escolha: “A sensação de vida vinha tão forte, que às vezes não sabia o que fazer com ela. Gritar não podia (JARDIM, p. 19)”. Ao contrário disso, ela prefere viver à sombra dos outros, como no caso de querer “parecer ser” com Tia Inaiá: “Anos mais tarde, conheceria o autor das cartas. Ele me olhou e disse: ‘Meu Deus, em que você se parece tanto com a Inaiá?’ Eu sabia. Tinha começado em Juiz de Fora, no início dos anos 40” (JARDIM, 1979, p. 18).
Essa atitude da personagem Rachel não deixa de ser uma fuga, pois, como leitora de Sartre, ela sabia muito bem que “o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer” (SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. In: ______. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 9). Estamos lançados no mundo para sermos o que queremos ser. Não há como querer “parecer ser” com alguém sem sair impune. Por isso, restaram apenas “os anos 70” e “os gemidos rotos da roda, reagindo à morte, numa sobrevida” (JARDIM, 1979, p. 115).
Publicado no jornal "Palco" de dezembro de 2011.
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