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Esse é um espaço em que aproveito a democracia na internet para divulgar assuntos relevantes e para discutir outros polêmicos; um espaço para se indagar qual a parte destinada à cultura no país; para falar um pouco sobre literatura e cinema; enfim, para falar sobre a vida.
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domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Os anos 40" de Rachel Jardim

Eu preferia morrer a renegá-los.
Rachel Jardim

"Os anos 40: a Ficção e o Real de uma Época" (1973 - referências retiradas de JARDIM, Rachel. Os anos 40: a Ficção e o Real de uma Época. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979), livro memorialístico da escritora Rachel Jardim, que nasceu e viveu os tempos de infância em Juiz de Fora (MG), está prestes a completar 40 anos desde seu lançamento e é uma das maiores referências na obra da autora mineira. O conteúdo é o retrato dos costumes sociais de sua família e época. E como ela mesma nos revela no subtítulo: é um enlace entre a ficção, onde se acentuam os aspectos imaginativos de seu texto, e a realidade, em que presenciamos as lembranças que afloram de sua mente sobre os anos 40 vividos nas cidades de Juiz de Fora e Guaratinguetá, a Guará da sua adolescência.
Logo no início da leitura, temos a noção de seu enredo: a descrição dos costumes sociais da família e da época em que estão inseridas as histórias da personagem que narra. No entanto, ao debruçarmos sobre as últimas páginas da narrativa, sabemos que há algo mais por trás dessas aparentes marcas anódinas. Há a feição da personagem Rachel Jardim, que perfaz a sua vida através da de outros, desvela-se tentando encobrir-se, narrando as suas histórias na tentativa de se encontrar (ou, quem sabe, tentar achar o tumor que a consome, a vida que se esvai dela).
No início do texto, ela já caracteriza a sua família e, por conseguinte, a si mesma: “Um sentimento caracterizava aquela raça, para mim tão forte, tão peculiar e que marcou tanto a minha vida: a religiosidade” (JARDIM, 1979, p. 3). Os espíritos íntimo e religioso que a cercavam geravam a contenção, a sensualidade e a luxúria encobertas, o ascetismo, a sobriedade etc. Em sua trajetória de vida, ela se sente torturada, pois se estava sempre atrás de Deus.
É daí que Rachel descobre em sua tia Inaiá um balaústre, uma fonte de inspiração para fugir daquelas sensações que a perturbavam. Uma pessoa que “nunca teve religião. De Deus, simplesmente prescindia” (JARDIM, 1979, p. 40). Tia Inaiá era o seu elixir da cura, mas como ter a coragem dela? Não basta querer “ser”, tem que ter a coragem de “ser”. Dessas inquietações e das conversas com sua tia surge Jean Paul Sartre, filósofo francês, autor de O Ser e o Nada (1943), livro em que se expõe a doutrina existencialista. Rachel nos fala do filósofo e do existencialismo: “Eu, fazia treze anos. [...] Tia Inaiá foi a primeira pessoa que me falou de Sartre. Pensava que era cedo para eu lê-lo, mas quando fui morar na fazenda, ali encontrei os seus livros e li” (JARDIM, 1979, p. 18). Ela lê Sartre na adolescência, quando vai com a família para Guaratinguetá. Também o lê durante o período da faculdade, dividindo as suas questões com um amigo, Ronaldo: “era o único que sentia angústia existencial. Por isso nos entendíamos” (JARDIM, 1979, p. 107).
Rachel, no entanto, vivia muito mais a angústia da espera do que a angústia sartreana, a da ação e da tomada de decisão. “Esperávamos. E nessa espera, fora e dentro de nós, as coisas aconteciam” (JARDIM, 1979, p. 9). O ritmo era lento e a vida de espera, de inação e quietude. Esperava-se o agir dos outros para algo acontecer. Tinha-se, para Rachel, um ambiente repressor que provocava a falta de liberdade. A angústia da espera era longa, substancial e alinhavada ao infinito. Rachel Jardim seria a única que poderia sobrepujar essa situação, mas é levada à busca pelo fantasioso, criando, desse modo, um ambiente de sonho e senso de irrealidade. Ela se perde da vida, imaginando-a mais do que a vivenciando. Em certo momento, chega a declarar que a vida imaginada é que era boa. “Não havia realidade e sim fantasia” (JARDIM, 1979, p. 50). Esse sentimento só é modificado quando a personagem sofre pela ausência dos mortos e, através deles, reflete sobre sua existência e se depara com uma realidade sofrível. Nesse sentido, o renascimento dos mortos e seu consequente convívio com eles a fazia permanecer no lugar de onde ela queria romper. Ela não só não rompia como mantinha as tradições por meio do reavivamento deles. Evitava, com isso, viver. E, quando vivia, estava sempre na sombra de um espectro, carregado de tradições, de sobriedades, de contenções e ascetismos. Quando a sensação de vida (em certo sentido plena e carregada de signos que nos remetem a palavras como liberdade) surge, Rachel não sabe o que fazer com ela, ou seja, não consegue romper, viver a sua livre escolha: “A sensação de vida vinha tão forte, que às vezes não sabia o que fazer com ela. Gritar não podia (JARDIM, p. 19)”. Ao contrário disso, ela prefere viver à sombra dos outros, como no caso de querer “parecer ser” com Tia Inaiá: “Anos mais tarde, conheceria o autor das cartas. Ele me olhou e disse: ‘Meu Deus, em que você se parece tanto com a Inaiá?’ Eu sabia. Tinha começado em Juiz de Fora, no início dos anos 40” (JARDIM, 1979, p. 18).
Essa atitude da personagem Rachel não deixa de ser uma fuga, pois, como leitora de Sartre, ela sabia muito bem que “o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer” (SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. In: ______. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 9). Estamos lançados no mundo para sermos o que queremos ser. Não há como querer “parecer ser” com alguém sem sair impune. Por isso, restaram apenas “os anos 70” e “os gemidos rotos da roda, reagindo à morte, numa sobrevida” (JARDIM, 1979, p. 115).

Publicado no jornal "Palco" de dezembro de 2011.
Clique aqui para acessar o jornal.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Novo site de Darlan Lula


Enfim está no ar meu novo site. Entrem, usem sem moderação e o comentem aqui no meu blog. Estou muito satisfeito com o resultado e acho que esta é uma ferramenta importante de divulgação da minha obra. Obrigado a todos que me auxiliaram neste projeto, em especial Gabriel Rezende, Gabriel Miranda e Mauro Morais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A espera

Para Míriam Lula

A crença no amor nos leva
a cristalizar a alma
à espera do futuro.

Bem sei que por um tempo
contemplei o percurso dessa
ideia como uma lágrima
fendida em rio
caudaloso margeando tranças
femininas.

Hoje a sua presença
é o presente instalado em mim
e o devotamento que te tenho
faz-me uma criança na ciranda da vida
rodeada de cores e de ludos instrumentos.

Já não preciso mais esperar
Vejo em você a noção exata
do que posso ter do mundo
E o seu olhar em mim diz mais
do que qualquer linguagem.

Na imensidão da íris
No inóspito riste dos cílios
No suave trejeito das pálpebras
Em infinita extensão que desbrava

em mim
você
Como só o amor pode tecer.





Site Darlan Lula

Meus prezados, em breve estrearei o meu site http://www.darlanlula.com.br para divulgação da minha obra como escritor. Está ficando bem bacana. Não seria por menos! Quem o está idealizando é o meu amigo e competente designer Gabriel Rezende. A conferir.

quarta-feira, 30 de março de 2011

30 anos

Antes de completar meus 30 anos, brincava e dizia aos meus amigos que, quando chegasse lá, não sei como reagiria, pois é um período de início de maturidade. É a insuportável pressão de ser homem sério, pagador de impostos, pragmático de sol a sol. É o tempo em que o ócio, a conversa fiada, o olhar o céu contaminado de nuvens infantis e preguiçosas chega ao fim; ou que, pelo menos, você terá, aos 30 anos, que prestar contas à sociedade do porquê de tanta fantasia e devaneio. É como uma árvore que, quando está uma muda, não tem do que reclamar: é acondicionada num pequeno invólucro, regada constantemente para ganhar força e viço; no entanto, quando fincada na terra, aí, meu amigo, ela vai ter que se virar para sobreviver. Muitas vezes, enfrenta obstáculos, vinga em locais inimagináveis. É a força da natureza sobrepujando obstáculos. Ao se tornar uma frondosa árvore, galhos gigantescos e tronco hercúleo, só mesmo uma serra elétrica ou um advento tempestuoso para contê-la. Somos nós aos 30 anos.

Embora implique e teime com a chegada dessa idade, é o período do forjamento de um ser humano maduro, uma pessoa segura, que não precisa mais ser conduzida, sendo condutora de grandes ideias e de pequenas outras mudas. Talvez a minha birra venha com o fato de que há outras implicações nesse amadurecimento. Sem nos desvencilharmos de nossas responsabilidades, acredito que não devamos nunca aquiescer ao pragmatismo do cotidiano, coisa que acontece quando se chega à fatídica idade. Sempre há tempo para se observar a Lua, solta no ar, brilhante e cheia. Sempre há tempo para ir ao cinema, namorar ao som de sua música preferida, perder tempo ganhando da vida momentos preciosos e intangíveis.

Nestes dois últimos meses, embora já com o peso da idade tentando me solapar a fantasia, depois de finalizar algo que queria muito e me incomodava devido à obrigatoriedade de não poder me desvencilhar disso enquanto não acabasse, retomei minhas leituras, fui ao cinema com minha família (pude curti-la!), emocionei-me – recuperei minha sensibilidade perdida e franqueada – com o desprendimento de Vik Muniz e a história de vida do pessoal de Gramacho em Lixo Extraordinário, saí extasiado com a atuação de Natalie Portman em Cisne Negro, ouvi apaixonadamente as Bachianas Brasileiras e chorei copiosamente ouvindo Chico Buarque cantar “O filho que eu quero ter”.

Percebi que não é tão ruim assim fazer 30, 40, 50, 60 anos. O que não é possível e nem saudável é perdermos a nossa fantasia, mesmo que tenhamos que perpassar barreiras que nos queiram limitar e refrear nossos instintos e nossa busca por luz. Fernando Sabino já dizia que, aos 18 anos, sonhamos em ser incendiários e que, aos 30, somos voluntários do Corpo de Bombeiros. É a chegada da maturidade. Não nos pode é faltar a chama no coração e a inquietação na cabeça.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Luto

É com muito pesar que anuncio a morte do querido Moacyr Scliar. Este espaço dedica a ele os mais sinceros sentimentos, decretando luto neste dia tão triste. Conheci o escritor Moacyr Scliar num evento literário em Juiz de Fora. Figura admirável. Que Deus o tenha em bom lugar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O violino e o piano: música-poesia

Sempre desejei tocar um instrumento musical. Sempre acreditei que quem toca é atingido por alguma manifestação divina. Ouvir uma música tendo como instrumentos o violino e o piano é uma maneira de ficarmos em paz com o mundo e com a nossa própria personalidade. Numa manhã do último dia 23 de agosto, Ricardo Torres e Rafael Gomes nos proporcionaram esse deleite. Seguem abaixo alguns instantes desse encontro:
















quarta-feira, 7 de julho de 2010

Aymar de Mendonça Lopes

Uma das coisas que aprendi durante anos de dedicação à literatura é identificar um texto bem escrito. Quando o querido Ricardo Miranda chegou-me com um pequeno livrinho da até então desconhecida para mim Aymar de Mendonça Lopes, o seu Longe Perto: Poemas, publicado em 1993, dizendo ser da recém-falecida avó de sua esposa, achei curioso pela história saída da boca de um grande contador de "causos" que demonstrou ser o amigo Miranda.
Durante a leitura, fui me acercando de que estava diante de uma escritora que sabia de seu ofício, elogiada por grandes como Edimilson de Almeida Pereira, Fábio Lucas, Creuza Cavalcanti França, Arthur da Távola... não só isso, inquietaram-me positivamente a melodia, a poeticidade profunda e simples ao mesmo tempo.
Ao me encontrar com o casal que me proporcionara prazer tão intenso, fui logo pedindo para publicar pelo menos dois poemas com os quais me identifiquei. A neta, Flávia Lopes, ainda ferida pela dor recente da perda, ao meu ouvir ler o poema "Dois Tempos", emociona-se. Eu não a conheci, mas a emoção trazida pela escrita, essa é universal quando se tem talento o suficiente para transmitir pelas palavras a beleza que é a vida e as suas filigranas.
Espero que em breve o casal Miranda-Lopes realize o que eu sugeri a eles: reunir em uma única obra os livros e inéditos encontrados de Aymar de Mendonça Lopes, legando a nós um tesouro que não merece ficar restrito às gavetas sujas do tempo.
Abaixo, os dois poemas a mim autorizados para publicação:

Dois Tempos

Sinto passos
trilhando asperezas

Caminho só

Na gaveta
pétalas secas da camélia morta
No chão das ameixeiras
asas de pássaros caídos
No ar
últimos acordes de um bolero

Caminhos de vento
procissão de desejos:
dois amores
dois tempos

e a imensidão
ampliando a saudade.

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Fazenda do Meu Avô

Um pé de manacá
florido sempre,
na entrada do alpendre.

Jasmineiro,
não sei mais onde:
sei de seu perfume
trescalando lembranças
esparsas pelo ar.

Plantação de café
dominando os espaços,
copadas eugeneiras
enfeitando a amplidão

Um manso riacho
correndo suas águas cristalinas
tão distantes
refrescando a minha saudade.

Engenho de cana
moendo nossas mágoas.

Moinho de fubá
romântico, banzeiro,
insinuando estórias
de rústicos moleiros.

Pássaros gorjeando
e animais de terreiro
alegrando o ambiente,
na mistura de vozes,
de bichos e de gentes.

Cavalos troteando,
carros-de-bois cantando.

Frutas, flores,
folguedos e castigos,
fogão sempre aceso,
aquecendo mil sonhos.

Fazenda de meu avô,
quantas vidas e mortes
por ali transitaram,
nas salas, nos quartos,
na cozinha, no alpendre,
nos cafezais, nos ermos,
nos currais ou nas pontes,
no chão do pensamento.

tudo traz a saudade,
tudo refaz momentos.

E distante, bem longe,
num clarão redivivo,
surge o vulto tranquilo,
pacato, doce, austero,
o vulto inesquecível
de meu avô querido.

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Onde encontrá-la na internet:

domingo, 20 de junho de 2010

Lembranças de uma mão*

A minha primeira lembrança de uma Copa do Mundo me veio através da mão de meu pai, carregando em si toda lamentação e tristeza pelo Brasil ter sido eliminado, em 1990, pela sua maior adversária, a Argentina. Naquele dia, mantivemos nossa rotina de ir à missa, com meu resignado pai dando-me sua mão suada e chorosa, eu alienado garoto de 9 anos na arte do torcer.
De lá para cá, minha geração não teve do que reclamar: campeões na Copa seguinte diante de uma Azzurra tentando arremeter seu último chute penal para os confins do Universo, eu ajoelhado no quintal de casa; vice em 98, com um Fenômeno convulsivo e uma Paris em festa, eu rouco no Alto dos Passos; em 2002, terceira final consecutiva, novamente campeões com a família Scolari e uma curiosa cabeleira à moda Cascão adornando a cabeça do hoje maior goleador de todas as Copas do Mundo, eu refestelado em um boteco pé no chão, feliz da vida; em 2006, após tantas conquistas, um time desmotivado e um técnico leniente não deixaram marcas agradáveis na História.
Chegamos, enfim, ao dia de hoje. Como não estar satisfeito e ansioso por ver chegar à hora do segundo jogo do Brasil nesta Copa do Mundo, em pleno domingo – dia nacional do churrasco e do futebol –, com perspectiva de classificação caso vença a Costa do Marfim. No entanto, os guerreiros brutamontes, característica peculiar a times da África, prometem uma boa dose de emoção. Nesse sentido, após a primeira rodada da Copa, vemos as contradições desse esporte: Alemanha no ataque, jogando um futebol alegre, quem diria; Espanha derrotada, tendo um dos times mais bem entrosados desta edição, uma vez que a base dele é o Barcelona; e a própria Costa do Marfim, com pinta de melhor Seleção africana na Copa, mas que demonstrou que, sem Drogba para ajudar Kalou, não imporá obstáculo a nenhum outro time de camisa. Portanto, sem Drogba, alvejado por um carateca brasileiro, já está no papo. A mídia, contudo, deu sinais de que ele jogará desde o início da partida.
As minhas projeções para o jogo, mesmo assim, são otimistas. Não queiramos ver nesse time o que foi a Seleção Brasileira de 82, um futebol-arte de primeira linha, como dizem os ufanistas daquele período. Porém, como já disse antes, nas últimas edições fomos campeões mesmo com times pragmáticos, objetivos, e vencemos e bebemos e gritamos, e nos esbaldamos com dois títulos mundiais. É claro que queria neste jogo o leve Ramires no lugar do trator chamado Felipe Melo; queria o solitário Michel Bastos tendo um companheiro para atuar lá na esquerda; e o Daniel Alves formando dupla com Maicon pela direita; só para citar alguns exemplos. Mas Dunga deve saber o que faz, pelo menos ele uniu o grupo num único objetivo – ou alguém viu no último jogo algum jogador fazendo cara feia por ter sido substituído?
O confronto entre Brasil e Costa do Marfim não será fácil, talvez até haja expulsão se o Felipe jogar, mas com Drogba pela metade levaremos essa. Luis Fabiano desencantará com um passe magnético de Kaká, e Robinho fechará a conta. Agora, em relação ao Brasil ser ou não campeão, essa é outra história, com desfecho imprevisível. Mesmo assim, eu me esperanço de que meu filho, no futuro, tenha lembranças generosas ao se lembrar de ter me dado a mão nesta época de Copa do Mundo.
*Texto publicado na Tribuna de Minas hoje, domingo, dia do jogo entre Brasil x Costa do Marfim, na sessão de esportes intitulada "Corneteiro convidado".

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Goulart e sua fome de pão

O que devemos reconhecer em nós mesmos é a capacidade dada a nós de perceber o ínfimo. Todos temos, de certa forma, um pouco dessa atmosfera perceptiva. É claro, porém, que há aqueles cujas qualidades vão além do mero observar, transformando em poesia uma formiga sobre o grão de açúcar, o respingar discreto e teimoso da chuva na janela embaçada do quarto ou até mesmo o sorriso de uma criança equilibrando-se de pé em uma cadeira. A poesia a qual me refiro pode vir em forma de música, de um belo enquadramento de filme, de uma pintura, e, claro, da própria escrita. Não é fácil chegar a essa equação, porém, alguns conseguem. O poeta Gustavo Goulart é um deles, provando isso em seu último livro de poesia Pequenas coisas (2008).
O livro é dividido em quatro partes: “Do Eu”, “Das Leis”, “Do Sul” e “Das Pequenas Coisas". Não cabe aqui fazer uma análise poema a poema, apesar de merecê-lo. Gostaria de salientar, entretanto, alguns aspectos interessantes em sua obra. Primeiramente, o que me cativa são os seus poemas-síntese, com sua capacidade de explorar à exaustão a enunciação em seus escritos, como no poema “Hereditário”:
"Meu pai e eu
ódio e amor
faltou conversa:
pedra e cimento"
Outro fator em destaque é a capacidade de - nós leitores - nos percebermos com um sorriso no canto dos lábios, ao estilo daquelas sutis ironias refinadas, quando lemos, entre outros, o poema “Natal”:
"Sempre quis um Natal
com temperaturas baixas
esse imperialismo da TV
mentiroso como ele só"

Goulart é daqueles para se ler aos goles, em doses homeopáticas, saboreando suas nuances discursivas e seus achaques de adolescente tardio à procura de um recanto, vide “Relicário”:
"Sul
onde ficam
amores não catalogados"
O autor já possui dois livros lançados: Estado ao vento (2006) e Pequenas coisas (2008), que têm corpo de achado maduro. Projetos de livros futuros não lhe faltam, já que a Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura do município de Juiz de Fora o vem agraciando com edições, sendo a mesma que contraditoriamente o põe no mesmo limbo que outros tantos projetos de menor peso literário. Isso é discussão para um próximo artigo, salientando ainda que a nova geração de escritores, da qual Goulart faz parte, sofre do revés de não ser tão lida e reverenciada devido à profusão de trabalhos de menor monta postos no mercado literário local. No entanto, acredito que a seleção natural aos trabalhos de qualidade ocorrerá, vendo em Gustavo Goulart uma das grandes promessas de poesia maior. Pequenas coisas não nos deixa dúvidas disso, acreditando esse humilde articulista que quando ele souber dar o tom de uma escrita intimista, porém de personalidade universal, como em boa parte de “Das Leis”, com seus brilhantes poemas “Da morte”, “Do possível” e suas reentrâncias memoriais a caminho de um Destino a ser comungado com grandes poetas mineiros, e o “Da herança”, expressão mais contundente do apego que se tem a grandes autores-ídolos como Drummond e Quintana.
Goulart não nasceu pronto, como vemos às vezes muitas imagens retóricas emitindo esse parecer vazio e oco sobre alguém, uma vez que sua escrita é o fruto de um trabalho sistemático e de longa data com o intuito de que um dia ele chegue a ser “o Motivo” de seus “Antepassados”. Cabe aqui, porém, uma pequena citação do nosso Machado de Assis: “A paciência é a metade da sagacidade / Ao menos na crítica”. Acrescento à crítica o labor da criação de um poema. Não há que se ter pressa. O grande Leminski fincava papéis com suas palavras em um quadro de cortiça e, dia a dia, compunha sua obra como uma mãe em gestação.
O poeta Gustavo tem noção disso, não precisando levar em consideração os seus ditos em “O pão nosso”:
"acho que de poeta
vou a mago
nos próximos livros
é que o pão anda muito caro"

Que venha a fome de pão e a saciedade da arte!